outubro 23, 2003

António Quadros

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Quis a vida que me cruzasse com o António Quadros num tempo de sonhos e utopias. Foi num Moçambique fascinante e inquieto dos princípios da década de oitenta. Eu no Ministério da Agricultura e a trabalhar no Centro para o Desenvolvimento Cooperativo de Namaacha. O António com oficina aberta na Direcção Nacional de Habitação, era a imaginação andarilha e o velho mestre alquimista que transmutava o nada em tudo. Do Mestre aprendi a apreender um mundo de coisas da vida, coisas de uma simplicidade apropriada e ao mesmo tempo de uma complexidade cósmica.
A sua vasta e multifacetada obra, atesta do seu génio prodigioso.
Tenho um enorme orgulho no privilégio de ter sido aprendiz de Mestre António Quadros. Tenho uma enorme satisfação em reproduzir o que sobre o Mestre, já postumamente, escreveu o amigo José Forjaz.

«É tarde agora para escrever sobre o António professor. É tarde, é quase inútil. Nunca foi de elogios que ele necessitou. Necessitava de o necessitarem, de o saberem necessário.
É também cedo para sobre ele ter ajusta perspectiva, a compreensão da sua dimensão centrífuga, da sua invenção, da extensão da sua influência sobre os seus discípulos, da sua cultura, fruto de uma curiosidade profundamente engajada.
Conheci-o sempre a ensinar. A ensinar-se a si, que era aprender, a ensinar à volta, que era ensinar a aprender.
Se as pessoas têm uma chave que lhes abra o segredo do ser de uma forma diversa das outras, no caso do António a que o explicaria melhor seria a sua prodigiosa imaginação, isto é, a coragem de pensar para lá do já pensado.
Para este homem, ensinar era uma escolha inevitável entre o grande gozo de produzir, que lhe vinha do cerne e do osso, e a grande responsabilidade do ensinar, que lhe brotava irreprimível em comunicação sempre inadiável. Professou.
O Tempo, como para todos, tinha contudo para ele uma dimensão encolhida que lhe resultava em escolha permanente daquela responsabilidade. A sua arte foi sempre didáctica. Desde a ode aos odres. A cabra ou o cabrão que não lhe vinham à mão – vinham-lhe do coração.
Reler (sempre ler pela primeira vez) os seus apontamentos para a “Tese de Agregação” traz-nos outra vez um profundo ódio pela morte (dos outros), dele que não acabou de facetar esse cristal. Estes apontamentos são mais uma síntese da lição que todos os dias começou, com a descoberta da primeira dúvida, da primeira lição, a si próprio.
O António não era, e muito menos agora é, redutível a uma tese: ele era assim, ele pensava assado, fazia cozido, cantava o frito. O seu pensar era esférico, constelar e translacional. Avançava sem perder a densidade, argumentava não por antítese mas por osmose, por tensão superficial das ideias e das associações. Era um pensar em bacia hidrográfica. De cada ideia seguia o seu percurso, ou um percurso, pelo afluente mais influente até um ponto de nascença, à fonte, uma qualquer das fontes primordiais. A lição que deu foi sempre a da escolha, sempre insuspeitada, de uma nova aventura do espírito.
Ele foi isso: um navegador do pensamento. Com ele o Norte eram todos os horizontes e a Índia não era um destino – era um pretexto. Pensar era preciso. Foi portanto este salutar aventureirismo do pensamento que ele melhor ensinou.
Esta alegria da descoberta do milagre da associação de ideias, das imagens, dos ritmos, das lavas eruptíveis do vulcão latente da memória. Da dimensão telúrica, subterrânea, ultramarina, astral, cósmica da imagem. Disso ele foi o mestre, o Gama das vastas regiões mentais inexploradas.
Pensar era alegria.
Era paixão.
Transmitir essa alegria era o seu vício, o seu dever alegre, o seu interesse visceral a cada momento, a cada encontro.
Como dito, ele veio ao ensino por aprendizagem. E por respeito pelo ensinável e pelo ensinado. Nos alunos respeitava tudo. Primeiro a pessoa. Toda a pessoa. Depois todos. O grupo. A relação. A inocência ou a pseudo falta dela. O espanto. A ignorância. A desconfiança, a dificuldade no adolescente ou agonia do obscuro, no maduro. Em cada um, um indivíduo a descobrir, a levar à descoberta. Um indivíduo a aprender. Um universo a maravilhar, a impressionar, a levar ao fim de si próprio.
(...)
Conviver com ele como aluno, amigo ou parceiro era uma constante exposição a esta quase tempestade de fulgores de imagens sempre, e quantas vezes quase instantaneamente, construídas a partir da matéria densa da sua enciclopédica cultura.
Porque o António era, curiosamente, um homem erudito. Curiosamente porque no seu caso (raro) o saber não lhe atrasou os caminhos da cultura. Ele fez sempre essa agronomia do conhecimento que brota no facto cultural.
Dessa cultura lhe veio a intransigência pelos que da cultura se servem para alimento da sua preguiça mental e doentia mistificação dos outros. Lhe veio uma atitude tão intransigentemente crítica que a muitos pareceu até maldosa. Não era. Era, sim, uma incapacidade de separar o pensador do seu pensar, a palavra da atitude. Mas pela crítica se progride, pela crítica se sobrevive. Pela crítica se ensina.
Melhor que eu ele o dirá.
Transcrevo (a crítica...):
“A aula passa a ser, entre mestres e amestrados, o doce congresso, de outros ou de duplos contentes, porque, reduzindo o plano da ilusão ao real cínico da sombra que projectam, um e outros, repartem sem partilha, o árido fazer no fito de ficar feito, a medonha inversão de sentidos do que arte seja, vida seja, ventura fosse. Do alto da peanha sombria e suja, a luz engessada de vinte séculos os contempla.
Avultam: a superioridade plástica, da morfologia menor desta Vénus em gesso, e a mesquinhez ofensiva dos bordejos encarvoados que são o resultado plástico da acção perversa do ser não.
Uma aula de crianças excluiria este não brio. Um salão de loucos mostraria a ronha alienada que, de facto, é.
Os cursos de arranjos florais têm emoção e comadrio. Num leilão de gado há activa contemplação estética, e, uma narina fremente, o fino jarrete, a crina farta da poldra, o velo enmoitado das borregas, ou a catenária pendente da vaca prenha, soltam o bafo das emoções mais directas por parte do perito morfo-pecuária. De onde sairá então a passividade perante o motivo? O domínio da emoção comum faz parte de toda a aprendizagem. Mas, domínio de, não significa ausência mas, e pelo contrário, a compactibilidade, ou seja, um acréscimo postulado pelo aumento de pressão interna. Só que o duplo, por natureza, é a imagem simulacro, a cria ligada à placenta da ilusão, nó de enjoos. Das suas opacidade ou ocacidade falarão os propósitos em falta.”
Crítica, como vêem.
À mediocridade de que o António Quadros, sem ser pela lei da morte, já há muito se tinha libertado.

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“Riscos com cavalo”
António Quadros

Publicado por machede em outubro 23, 2003 02:04 AM
Comentários

Descobri hoje, casualmente, este blog. Soube-me a umas belas migas. Que bom! Quanto ao trabalho do António, foi o segundo pratinho de migas.
Obrigada por este blog que me exaltou as origens (alentejo)...vou juntá-lo aos meus favoritos, porra!

Afixado por: miamel em outubro 24, 2003 08:36 PM

Quase uma década após pregar mais uma partida, reencontro António Quadros. É bom sabê-lo lembrado, reconhecido, embora

muito menos vezes das que verdadeiramente merece. Porém, certamente a sua sabedoria rir-se-ia disso, afinal ele É um Homem

maior que a vida...

Afixado por: Maria Barbosa em maio 7, 2004 09:03 PM