
António Gancho nasceu em Évora. Já em Lisboa, gastou os fundilhos das calças nas cadeiras do desaparecido Café Gelo, consumindo o tempo na mítica tertúlia dos surrealistas. Há uma eternidade que vive na Casa de Saúde do Telhal. Desde que a mãe lhe morreu, sua única companhia de sempre. Possivelmente, já não saberia viver noutro lado. E tal como ele diz no poema «Sobre uma manhã qualquer»: Ah, os poetas são decididamente afectados.
Noite Luarenta
Noite luarenta
Noite a luarar
Noite tão sangrenta
Noite a dar a dar
Na chaminé da planície
a solidão a cismar
na chaminé da planície
noite luarenta a dar a dar
Noite luarenta
noite de mistério
noite tão sangrenta
solidão cemitério
Na chaminé da planície
o Alentejo a solidar
noite luarenta que o visse
noite luarenta a dar a dar
Noite luarenta
noite luarol
na chaminé da planície
o temor e o tremor
O cavalo a luarar
a lua a fazer meiguice
noite luarenta a luarar
noite luarenta a luarice.
António Gancho