Almodôvar, Dogueno, Ameixial, Besteiros, Catraia, Cortelha, Barranco do Velho, Alportel, S. Brás de Alportel, Machados e, depois, o que resta de uma outrora farta e imensa campina. A velha estrada Nacional 2, depois de serpentear pelo Caldeirão, chega quase em segredo a Faro, como que envergonhada de desembocar num “progresso” que não é decididamente o seu. Quase no final, subalterniza-se e atravessa incógnita o talude da jovem e tresloucada Via do Infante, como que proferindo: não se incomodem comigo. Abdicou de livre vontade de colaborar na venda da alma ao diabo e remeteu-se a uma pacatez que sempre foi sua.
Mantém a tranquilidade e a beleza de uma anciã que, lucidamente, conhece os seus préstimos, desempenhando agora a mansa função de encaminhar os poucos viajantes, sem alma de turistas, e o vaivém dos locais que, da cumeeira ou das abas da serra, descem os afazeres para os lados do Algarve ou do Alentejo. Curvilínea junção a um território de gente que não se sente nem do Algarve nem do Alentejo. Antes preferem a apátrida condição de serrenhos que, quando descem, vão ali ao Algarve, ou, vão ali ao Alentejo.
Do livro “A Serra do Caldeirão”, editado oportunamente pela Associação In Loco, retiro dois relatos que são a prova cabal deste sentimento profundo.
«Nós aqui, não usamos assim muito a miga, é mais ali para o lado da serra do Alentejo. A gente usava mais a açorda. E a açorda também é uma coisa simples. Temos o alho e o azeite e o sal numa tigela, e coentros, e depois temos a água ali a ferver, com ovos ou sem ovos, como quisermos, pomos ali o alho, o azeite e as sopas ali numa tigela. Depois deita-se a água quando estiver a ferver e os ovos cozidos, se tiverem ovos, ali para cima daquelas sopas. Mas, só a açordinha, também era bom. Depois mexe-se assim por baixo, para vir o azeite por cima e aquele sabor do alho, está a açorda feita!»
«Eu lembro-me da minha mãe secar sardinhas para comer com a açorda, aquecidas ao lume e depois temperadas com azeite e alho. Já vinham secas do Algarve. (...) Vinham secas de lá e vinham as sardinhas em barricas, as sardinhas estivadas (vinham em canastrinhas, todas amanhadas, já preparadas). Havia também quem as comesse cruas, como se come bacalhau, ou aquecidas ao lume na brasa, e depois temperadas com azeite e alho».