Num dos meus passeios nocturnos pelo burgo, demorei a memória na loja Porto filho, estabelecimento com porta aberta na rua Elias Garcia. O pai Porto tinha loja montada, vão uns anos largos, na rua do Raimundo. De pai para filho o ramo de negócio manteve-se mais ou menos inalterado, a não ser numa engenhosa particularidade. O pai Porto tinha uma grossa fatia de negócio no comércio de livros usados, e nestes, a talhada maior pertencia às histórias dos quadradinhos. A parte engenhosa do negócio tinha a completa adesão dos pequenos clientes: entregavam dois usados em estado legível contra o levantamento de um usado ainda não lido. A coisa funcionava, evidentemente alimentada pelos mais endinheirados que forneciam o circuito de livralhada nova. O que é certo é que dei esta matéria dos quadradinhos estribado num investimento de pequena monta. O reduzido orçamento disponível assim o exigia. É que para além dos livros dos quadradinhos também comportava os pirolitos, os selos da bola, os matraquilhos e mais algumas extravagâncias extras.
Na literatura quadriculada era mais ou menos eclético. Mantinha, no entanto, uma relação mais chegada com o luso-britânico Major Alvega e com o justiceiro Fantasma. O Tim-Tim prendia-me a atenção pelo rigor e colorido do desenho. A alínea dos índios e dos cowboys foi igualmente devorada, servindo inclusivamente de guião para incontáveis tardadas de brincadeira povoadas de tiros e setas. A porra é que na inicial divisão dos exércitos ninguém estava virado para ser índio. Escusa, que levava há formação de um exército pele-vermelha constituído por voluntários à força que, na primeira oportunidade, desertavam ou traíam. Carreguei durante muito tempo o fardo da simpatia pelos peles-vermelhas mas da relutância em pertencer a um exército derrotado à partida.
Mais tarde, quando soube que as histórias aos quadradinhos eram afinal banda desenhada, percebi igualmente da trama montada pelos caras-pálidas aos peles-vermelhas. Daí que, guarde devotamente o único livro que penso ter lido onde os peles-vermelhas, comandados pelo Touro Sentado, deram uma monumental coça nos caras-pálidas, comandados pelo famoso general Custer, cara-pálida que, precisamente, nessa batalha, bateu a bota.
