
Não tarda cinco tostões está aí o Verão dos marmelos. Pois é, cá na provinciana transtagânea desfrutamos o verão em duplicado. No intervalo, entra o mestre Outono com os borrifos da praxe para amaciar a leiva e libertar o memorável cheiro a terra molhada que carrego no disco duro da memória desde que sou gente. Pelo Outono adentro volta o patrão sol a derramar uns calores segundeiros, menos ásperos mas nem por isso menos calmosos. A rapaziada de muito tempo ainda dá vaia: cautela com ele (o patrão sol) que anda baixo. Ano há, que a quentura ainda anima o S. Martinho.
Era o tempo das primeiras caçadas – digo era, porque hoje nada mais há que uma guerra sem quartel, desencadeada por um magote de tios, tias, bimbos e outros alarves invasores de camuflado que atiram a tudo o que mexe, incluindo os nativos se a jeito estiverem. Era o tempo das primeiras lavouras – digo era, porque agora só já restam agricultores transmutados em guardas da natureza e alguns ucranianos e moldavos, ainda assim não ficamos para aqui só meia dúzia de pategos a ver se chove. Que venham e tragam sangue novo para outra caldeirada de culturas que nessa têmpera foi modelado o nosso B.I.
Mas voltando ao Verão dos marmelos, ou seja, o segundo do calendário da transtagânea. É esta a altura dos ditos estarem maduros, penugentos, amarelinhos, de marmeleiros que nasceram no deus-dará das balsas e por mou disso o cognome de marmelos balseiros. Desses amarelinhos saía a gulosa marmelada que se vendia aconchegada em papel vegetal dentro de caixas de madeira, essas mesmas respeitáveis e estéticas embalagens que a acética ceéézinha tornou proscritas. Pelo descaminho que isto leva, não tarda nada que um eurocrata tonto declare a expulsão da flora e fauna dos intestinos dos cidadãos: não são permitidos gajos com hortas e bicheza nos interiores, pronto!
Lá ia eu outra vez para a bordoada, este maldito feitio ainda prega comigo num Guantanamo qualquer. Voltando à lambarice, sobre a dita marmelada existe um naco de prosa do saudoso Afonso Praça, no maravilhoso livro também desenhado pelo Francisco Simões, “Receitas afrodisíacas & desenhos eróticos”, que é uma conveniente e animada celebração de doçuras.
«A arte de bem fazer marmelada

Pode parecer exagerado, mas a verdade é que a marmelada aparece sempre ligada ao conceito de prazer, e não apenas por ser doce. Em favor desta teoria, que adiante se desenvolverá, pode mesmo invocar-se abonação real, chamando a terreiro o exemplo do Rei Magnânimo, D. João V, um dos mais célebres comedores de ladrilhos de marmelada da história de Portugal, ele próprio responsável por muita da marmelada que no século XVIII se fez no Convento de Odivelas, durante o seu longo reinado de 44 anos.
Conta-se, e a história confirma, que o Rei, beato e muito dado a superstições e bruxarias, já se tinha tornado conhecido como frequentador assíduo do Convento, quando para lá entrou uma bonita jovem de 17 anos, Paula Teresa da Silva e Almeida, mais tarde celebrizada com o nome simples de madre Paula. D. João V era tudo menos um platónico freirático. Guloso, galanteador, mulherengo e apaixonado, transformou-se num autêntico «coureur de femmes», e era vê-lo apear-se do seu coche, à porta do convento, «para ir ler papéis de solfa com as freiras assentadas nos joelhos», como diz Júlio Dantas, que lhe chama «galo de Odivelas e de Via Longa».
D. João V apaixonou-se pois pela jovem Paula Teresa, que, apesar da sua tenra idade, já era amante do Conde do Vimioso quando entrou para o convento. Foi fácil ao Rei entender-se com o Conde, e Paula passou a ser a amante preferida de D. João V, que a transformou numa espécie de Madame Pompadour, mais desejosa de conforto e de prazeres do que de sacrifícios e de cilícios. E apesar da diferença de idades (o Rei era trinta anos mais velho do que a freira), D. João V visitava-a todas as noites, ou quase. Com tal assiduidade, nada mais natural que fazer alguma marmelada – a possível, é evidente. Mas também se admite que o Rei, bem resguardado dos olhares ávidos dos súbditos, algumas vezes tenha colaborado com a amante na confecção do pudim da Madre Paula, batendo as dez gemas de ovos que a receita indica. Em questões de doçura, não lhe faltava, aliás, que fazer, nem a ele nem a outro qualquer com as mesmas facilidades à chegada à portaria: o Convento de Odivelas tornou-se famoso pelo seu receituário doceiro, no qual avultavam, além do pudim da Madre Paula, o bolo-podre, os suspiros, o toucinho-do-céu e... os ladrilhos de marmelada, de que, pelos vistos, o Rei era grande consumidor.
Verdade ou não, Alberto Pimentel diz que, em Odivelas, D. João V «entremeava as pulsações do coração com as contracções do estômago, mordiscando ladrilhos de marmelada com a Madre Paula; e tanto assim que um desses quadradinhos de doce, com evidentes de mordeduras régias, serviu, juntamente com outros ingredientes de procedência menos limpa, para uma célebre sorte de bruxedo que foi um dos mais apregoados escândalos desse tempo».
O caso soube-se porque em 1736 as mulatas Salemas, bruxas de Setúbal, foram acusadas de terem preparado, com a cumplicidade do Padre Bartolomeu de Gusmão e de duas freiras de Odivelas, um feitiço com o objectivo de mudar o Rei da cama da Madre Paula para a de outra freirinha mais nova e também muito bonita. O bruxedo não deu resultado e D. João V lá continuou a fazer (e a comer) marmelada com a Madre Paula, talvez na esperança de que tão doce tarefa lhe fosse levada a crédito na hora do ajuste final de contas.»
Curioso. Aqui na bairrada chama-se mesmo "verão de S. Martinho" que é normalmente quando se prova o vinho como diz o ditado: "No verão de S. Martinho vai à adega e prova o vinho".
PS: Parabéns e continua com o excelente blog.
Afixado por: Zull em outubro 1, 2003 01:52 PMParabéns pelo aratigo.Àcabo de me aproveitar das informações para um trabaho de pesquisa que estou realizando.
Marilena Balsa
Achei muito interessante a História do D. João V e da marmelada.
Eu sou de Setúbal e fico surpreendido com a referência às mulatas Salemas, bruxas de Setúbal.
Nounca tinha lido nada sobre o assunto e não encontro mais nenhuma referência na net.
Será que sabe mais sobre o assunto?
obrigado
HS