setembro 30, 2003

Baetas do mui nobre e sempre leal burgo

Quinta-feira, fui ao baeta aparar a lã. Ao contrário das insuportáveis bichas para o atendimento nas instituições públicas, é um prazer o suave pousio da léria enquanto espero uma vaga na cadeira de mestre Perdigão. Ás vezes, até apetece fazer uma cortesia ao freguês detrás.
Nem sempre assim foi. Quando palerma de calções só dava a cabeça à tesoura se rebocado à unha pela autoridade da gerência familiar. Nem o engodo da “Bola de Berlim” na Pastelaria Académica, após a tortura lanígera, engodava o salafrário. O mestre Miguel, conterrâneo da gerência com barbearia posta na rua da Misericórdia, constava da lista negra dos gabirus com quem um dia mais tarde haveria de ajustar contas. Livre da vingança, com o perdão posteriormente fundamentado na utilidade de tais préstimos – arte da tesoura e autorizada fonte noticiosa –, morreu do cansaço de tanto dar ao dedo e à língua.
Quando por conta própria comecei a andarilhar e a ter buço para escanhoar, fiz trespasse para o Neto. Moço barbeiro que ali na rua da Cadeia tinha por conta uma manada de irreverentes cachimónias com cabelo à beatle para tosquiar. Era um couto de efervescente insurreição, ou não fosse o Neto, neto do Neto de S. Mancos, velho camponês anarquista e desertor nos idos tempos da grande guerra de 14/18. Velho anarquista que ainda tive o aprazimento de acompanhar ao congresso da oposição em Aveiro, corria o longínquo ano de 73.
Após o regresso ao berço eborense – os kambacos (elefantes velhos) tornam sempre ao princípio para aí morrer – assentei arraiais no salão Perdigão, ali na 5 de Outubro como quem sobe para a Sé. Perdigão & Perdigão, sénior e júnior, são danados para a brincadeira ou não fossem moços redondeiros e fizessem jus há sua arte.
Mais uma vez demos despacho a várias matérias vitais... o futebolês nacional em geral, o fervor benfiquista, o unânime galo sulista ao fcp... a honorária paixão pelas moças do nosso contentamento... as chafaricas das redondezas que estão no top dos petiscos e dos tintos, com a avisada ressalva que no Fialho só com letras a noventa dias... o abate virtual de 3 ministros (incluindo o Portas), 8 secretários de estado e 17 directores gerais, mais o avacalho avulso de 2 vereadores, 1 policia, 3 generais e 2 construtores civis... estacou a venerável congregação no tema das novas designações profissionais. Desta vez a pérola saiu da boca do Perdigão Júnior: eu, barbeiro??? já lá vai, cabeleireiro de homens muito menos que isso cheira a roto!!! meus caros, eu sou arquitecto capilar. Boa Perdigão, a criatividade ao poder!

Barbeiro.jpg

Publicado por machede em setembro 30, 2003 02:30 AM
Comentários

Belo texto! A evocar um dos tempos mais íntimos e ao mesmo tempo tão impessoais do homem. Ainda há baetas dos antigos, fico feliz por saber isso. O "salão para homens" onde vou consegue ter o ar dos antigos, embora com luz e limpeza inexcedíveis. E a atmosfera de intimidades é também quase igual. Quase...

Afixado por: Paulo em setembro 30, 2003 02:48 AM

ainda me lembro, quando era miúda, de gostar do cheiro dos barbeiros onde ia com os meus irmãos. O cheiro a perfume intenso. Recentemente descobri um perfume com aroma idêntico que me fez recordar não só esse espaço, como a fúria lacrimejante dos ditos irmãos sempre que de lá saíam rapados à máquina pente 3.
Abraço blogueiro

PS: mesmo percebendo que se goste de estar dar um saltinho no tempo para ver se lá mais para a frente estamos ainda seguros, esta de a datação dos post estarem com 11 dias de avanço faz-me ter vontade de poder provar o vinho da víndima de ontem.

Afixado por: GIN em setembro 19, 2004 10:31 AM