setembro 17, 2003

PCP lights

Quando o Ary dos Santos morreu, o Luís Pacheco após acompanhar o poeta ao destino final, comentou no seu eterno estilo surrealista: impressionou-me o esquife coberto pela bandeira do PCP, vou meter uma cunha ao meu amigo Casanova a ver se me admitem lá no partido, quando bater a bota gostava imenso de levar também a bandeira, para além da performance é confortável e deve ser tremendamente quentinha. O Pacheco engendrou uma curiosa e singela conveniência a ter em conta pelos estrategas do partido, entre muitas outras, do mesmo vulto, que obviamente terá. Nos tempos que correm, o partido não se pode permitir viver somente dos volumosos mercados da Assembleia da República, dos sindicatos e das autarquias. Tem de se fazer há vida e procurar novos utentes.
Manifesto assim a minha empenhada preocupação com o definhamento do partido. O PCP faz falta e é insubstituível no poial partidário. Um baleizoeiro, amigo chegado, lavrador dos antigos e com tendência direitinha – a minguar – sempre que a conversa para aí encarreira, proclama com denodo: o partidão faz falta ao Alentejo, e a Catarina Eufémia não a arredam ali do largo, eu sou um dos que não autorizo. Explica muita coisa!!!
O mercado está atafulhado de café sem cafeína, de tabaco quase sem nicotina, de cerveja sem álcool, e outros produtos que, segundo os “nutricituacionistas”, não fazem mal ao esqueleto. Sob a mesma bandeira – o vermelho é lindo e (do) glorioso, a foice e o martelo são duas honestas e respeitáveis ferramentas que estiveram na génese do mundo moderno, fazem alguns calos é verdade, mas o que custa é o que Deus e o Marx agradecem – porque não duas versões; o PCP puro e duro; e o PCP com baixo teor de comunismo. O Abrantes, o Jerónimo, o Bernardino, o Casanova, tinham um mercado, o Figueira, o Carreira, o Brito, o Edgar, tinham outro mercado. Há alguns, pé-cá-pé-lá, que não atino como os embrulhar?
Não mereço louros porque não inventei coisíssima nenhuma. Desde o tempo dos calções que o PS tem duas linhas: uma que não faz mal à saúde, e outra, que nem bem nem mal. Rapazes, olho no Alegre e, calculem, no Soares e na infiltração do MES. Caso singular é o do Bloco de Esquerda, que nasceu só com uma linha: a sucedânea lights da extrema-esquerda de antanho. Só espero que um dia o ADN do Trotsky não se engalfinhe com o ADN do Mão. Nesse dia, os moços, têm que abrir um supermercado do género do Celeiro. Prateleira a ti, prateleira a mim, e não sei?

Publicado por machede em setembro 17, 2003 08:16 PM
Comentários

Compadre: estou a gostar disto dos blogs. A malta vai dizendo o que lhe apetece, na boa, sem ser trucidado por isso. A menos que haja para aí um sucedâneo das escutas... Que se lixe, quem tem alguma coisa para dizer, diz sempre, não é?
A propósito deste seu texto sobre o PCP Lights: achei piada! A sério! Eu vejo os partidos assim: são todos faces do mesmo cubo. Umas vezes, está uma face virada para cima, outras vezes está outra. Mas, são todos faces do mesmo cubo, compreende? Cubo de caca, pois então! Retórica à parte, lá no fundo, no fundo, os partidos não são assim tão diferentes uns dos outros, pois não? Ou será que os partidos são diferentes, os seus dirigentes é que não? Não importa, vai dar no mesmo. Por falar de fundos, sabe que o gajo da defesa, abriu as portas e proclamou: "Hei, maltosa, olhem o meu pacote! Não são uns belos fundos? Quem quiser pode servir-se, dá para todos!"
Acha que ele se estava a referir a fundos comunitários? Quanta generosidade!O pior é se são fundos falsos...
Até qualquer dia!

Afixado por: Zé da Provocação em setembro 18, 2003 10:14 AM

is there a english version of your web page?
thanks
chris

Afixado por: chris em janeiro 12, 2004 11:56 PM