setembro 16, 2003

Sepúlveda sem papas na língua

«Sou do sul. Tenho todo o tempo do mundo para conversar». Estamos entendidos Luís! Cá neste sul temos igualmente todo o tempo do mundo para concluirmos, ou não?
«Allende queria edificar no Chile o socialismo sem violência... 1000 dias de sonho... a nossa experiência não era decalcada de nada... nem Cuba, nem União Soviética, nem qualquer outra, era a nossa... a Lenine, preferíamos John Lennon... a Marx, antepúnhamos Grasmci... socialismo? sim, o libertário!.. propósito? claramente próximo do sistema sueco de Olf Palme com as devidas diferenças entre economias e culturas... acabar radicalmente com a propriedade privada? não, acabar radicalmente só com a pobreza. Depois foi o que toda a gente atenta sabe... a violenta golpada do criminoso Pinochet, marioneta dos interesses que bem sabemos... responsável por uma ditadura feroz e sanguinária... com muitos milhares de vítimas... ideólogos? o Nixon e o Kissinger! mais uma vez com a mão reincidente da criminosa e terrorista CIA». Recentemente num encontro com estudantes, o insuspeito Colin Powell – conhecido na América por Pai Tomaz – inquirido sobre o golpe no Chile respondeu: “Não é uma parte da história de que possamos orgulhar-nos”.
Se o paleio fosse tu-cá-tu-lá, certamente a conversa teria pano para mangas e alguns tintos. Mas a coisa era mais cem-cá-tu-lá, como normalmente acontece nestas andanças, e sucederam-se as coloquiais perguntas da praxe. Até que aconteceu a incómoda pergunta, a adivinhar um forte desconsolo para uma certa rapaziada que teima em hipocritamente querer esconder que o mundo pula e avança, mas tal como não esquece o ignóbil generaleco chileno, não esquece igualmente o sórdido Zé dos bigodes.
«Qual a minha posição sobre o regime de Fidel Castro? é tremendo e desumano que se condene um povo a um bloqueio de quarenta anos... não aceitarei nunca o que se passou ultimamente em Cuba porque sou de esquerda, e ser de esquerda é ser contra os processos sumários e a pena de morte, processos e penas iguais aos que usou a ditadura chilena... os americanos são burros, no dia em que acabarem com o bloqueio a Cuba, o regime de Fidel sobreviverá quanto muito mais um ano».
Pela parte que me toca, sem dúvida Luís, concluí!

A convite da Livraria eborense Som das Letras, ontem, no Garcia de Resende, o consagrado escritor chileno Luís Sepúlveda apresentou o seu último livro “O General e o Juiz”.

O Luís Sepúlveda é reconhecido internacionalmente como escritor, é um homem de esquerda com um percurso de vida exemplar. Tive um imenso prazer em ouvi-lo em Évora. Estranho que no Garcia de Resende, uma das salas de visita oficial da cidade, não estivesse presente ninguém da Autarquia socialista – eu não vislumbrei. Perderam a oportunidade de ouvir coisas interessantes.

Publicado por machede em setembro 16, 2003 11:51 PM
Comentários

«Sou do sul. Tenho todo o tempo do mundo para conversar». Estamos entendidos Luís! Cá neste sul temos igualmente todo o tempo do mundo para concluirmos, ou não? "
Também sou do Sul, embora viva no centro... e senti muito esta frase... Porque eu acho que só no sul é que há mesmo o tempo todo do mundo para conversar... não sei como, mas consegue-se. :)

Afixado por: Helena Thadeu em setembro 19, 2003 01:04 AM

Compadre: se calhar perdi a oportunidade de o conhecer. Tenho muita pena, mas não soube da vinda do Sepúlveda. Gostava de ter assitido, ouvido, talvez participado. Faz-se tanta propaganda do show de qualquer pimba que aí aparece, mas do que vale a pena...
Não me admiro que ninguém da Câmara estivesse presente. Talvez por também não saberem; talvez porque muita coisa lhes passa ao lado...
Zé da Provocação

Afixado por: Zé da Provocação em setembro 19, 2003 10:47 AM