Irrepreensível. Percebi lindamente a tua argumentação na defesa da negociata novelesca. Daí, infiro igualmente das armas da retórica a que lançarás mão na defesa do castelo. Usando o futebolês, e parafraseando o grande intelectual das quatro linhas José Mourinho: para ganhar, vale tudo! O povo é iliterato, sai portanto mais uma dose de indigência mental ali para a mesa do Zé-povinho. Brilhante!
Quanto ao mestre de semiótica, ao preocupado escritor do «A falha», ao cultor ensaísta, que certamente escorraçará à bengalada da sua mesinha de cabeceira as inenarráveis ritas ferros e margaridas não sei quê, fico deveras desassossegado. Receoso do seu guarda-roupa ter as tais duas fatiotas. Uma, que traja na qualidade de livre-pensador. A outra, que enverga durante o santo horário de trabalho de capataz acocorado da “cultura” municipal.
Relembro o meu amigo António Quadros – o pintor, não o outro – que com o seu habitual sarcasmo, vociferava: o capataz é o incapaz!
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Acabei de chegar de Férias, também da Europa revisitada por mim ao fim de 20 anos, com a confirmação daquilo que já suspeitava: a "nossa bela" cidade(zinha) sempre foi muito pequenina. O "riquíssimo" património herdado retornou sempre ao campo das relações simbólicas com uma imensa carga punitiva, assente numa lógica maniqueísta em que o bem era interno e o mal era externo, em que os donos do saber, quase sempre com ligações fortes à posse material da terra, da propriedade, das relações de produção (que arrepio! um conceito marxista ... va de retro ...) e/ou ao poder, determinaram as relações, enunciando conceitos como ¿Évora/museu¿, atribuindo rótulos eivados de presunção como ¿Templo de Diana¿. A dimensão folclórica herdada do estado novo cercou a urbe com uma ruralidade anacrónica que reproduzia relações sociais marcadas por persistências feudais. Era a ¿Évora dos Pequeninos¿ no seu melhor, fechada ao mundo, encarcerada nas teias dos pró (ou para) intelectuais filhos-família, vergada pelo peso da instituição religiosa.
Com Abril as mudanças foram lentas, as persistências deste imaginário conservador foram e são poderosíssimas. A cidade cresceu pouco, a universidade, síntese dessa lógica religiosa/rural cresceu sobre o seu umbigo. As gentes novas apaixonadas pela ¿Bela Évora¿ vivem-na com a sensação do despeito de uma paixão não correspondida porque Évora é dos outros, dos que a queriam só para si parada no tempo.
A gestão CDU, não foi completamente impermeável ao imaginário pré-existente , alguns dos ¿notáveis¿ que ¿ordenou¿ nas várias instâncias de conformação da conflitualidade própria do exercício do poder ¿ comissões municipais, protocolo, etc. ¿ eram os ¿notáveis¿ de outros tempos ou os seus descendentes. Os outros, ¿novos eborenses¿, e/ou mais afectos à sua família política acabaram por ceder à lógica conservadora, incapazes de vencer o enorme peso das instituições tradicionais.
Os últimos anos de gestão CDU contrariaram de alguma forma o imobilismo dominante. O desenvolvimento passou a ser um conceito tutelado pela cultura, interpretando assim a modernidade mais humanista, aquela que escapa às ondas cegas de alguns para-intelectuais que defendem de forma xenófoba os valores mais retrógrados e apodrecidos da civilização ocidental, e a necessidade absoluta das novas cruzadas empreendidas pelo Big Brother americano, renegando o tempo em que liam/ouviam Boris Vian que vibravam com Ferré e Aragon e cantavam a internacional em francês, trocando ¿le Temps des Cerises¿ por ¿The big apple¿.
Évora começou lentamente a sair de uma letargia de envelhecimento despertando para o mundo, acolhendo as culturas alternativas dos muitos jovens que a habitam, com uma inusitada tolerância. Velhos espaços ganharam novas dinâmicas, a velha praça voltou a ser uma encruzilhada de comunicação e uma janela para o mundo das culturas dos artistas que passaram pelo Viva a Rua. Dançou-se nas ruas ao som da dixie, aos ritmos africanos, ao som das tradições europeias e mediterrânicas. Ganhou-se a rua como espaço de encontro e comunicação. Ganhou-se também o estatuto de cidade de cultura com os muitos acontecimentos, esses sim de excelência, que atravessaram as ruas de Évora, que sitiaram os muitos espaços de exposição. Quem não se lembra de ver pela primeira vez Malangatana e Roberto Chichorro? Quem não se lembra daquela fabulosa retrospectiva, comissariada por Rui Mário Gonçalves, dos artistas de Évora e da emoção que foi rever Palolo, Charrua, Alvaro Lapa, Julio Resende, entre muitos outros? Quem não se rendeu à pintura de Hiroshi Umesaki, às obras contemporâneas dos 12 artistas Holandeses da ¿Suzanne Biederberg Gallery¿, aos quadros dos pintores de Trieste apresentados por Sergio Molesi? Quem não se comoveu com as Fotos de ¿Os Mártires do Silêncio¿ de Inácio Ludjero? Quem não conheceu pela primeira vez as fotografias do José Manuel Rodrigues, agora presente em quase todas as exposições ¿pré-fabricadas¿ dos amigos fotógrafos que traz a Évora em pacote.. Também foi nesse tempo que eu conheci, pelas edições municipais, a prosa de João Monarca Pinheiro, de Luís Carmelo, de Antunes da Silva, de Maria Sarmento, entre outros. O estatuto de cidade cultural era distintivo, assentava por um lado na qualidade das manifestações e por outro na democratização do conceito ¿ tudo acontecia para todos os públicos. Esse estatuto comunicava, Évora era referida nos média nacionais e internacionais, começava a tornar-se hábito vir a Évora assistir aos imensos acontecimentos culturais. Foi o tempo das cumplicidades em que editores de cultura dos principais jornais escreviam Évora e os seus eventos com uma atitude simpática.
Os tempos mudaram. A legitimidade da mudança é um dado técnico, indiscutível, os conteúdos da mudança são obviamente discutíveis. Os espaços públicos de discussão são quase nulos. Não interessam aos poderes? É de todo o interesse manter (leia-se: ¿injectar dinheiro¿) o pasquim Diário do Sul como o reprodutor fiel da voz do dono?
Os conteúdos da mudança são obviamente discutíveis. Évora voltou ao triste ¿antigamente¿. As high light já não brilham nas páginas do Expresso ou do Público, não há Festival que mova o Bouzianne do Liberation. Agora restam-nos as (des) honras do 24 Horas e da Caras, O presidente partilha a sua imagem com Carlos Castro e Lili Caneças. O Templo (agora) de Diana assiste ao marialvismo carregado de raça, de touros e de passado, do Nuno da Câmara Pereira.
Há sempre uma luz ao fundo do túnel, há sempre um potencial de criação pronto a despertar, há sempre um espaço de comunicação para descobrir e por aí passa a vida num contínuo dinâmico. Atenção senhores do Poder! A mudança não é vosso apanágio exclusivo.
Foi com uma enorme surpresa que descobri os Blogs e com uma enorme satisfação percebi a animação que corre nos largos da blogosfera de Évora. Saúdo-vos a todos, Luís Carmelo, Chaparro, Giraldo e Sertório e todos os outros que participam. O meu blog é evidentemente aberto a todas as conversas, contem comigo para um salutar debate de ideias.
alexis_gl8@hotmail.com
posted by ALEX SILVA | 9/18/2003 12:26:28 PM
Afixado por: Alex em setembro 18, 2003 04:55 PMCompadre: li o seu texto sobre o Luís Carmelo e não gostei. Não gostei por discordar, não, não é isso. Não gostei, por concordar, o que é dramático. Também conheço o Luís há uma quantidade de anos e não percebo por que razão se presta ao papel que anda a fazer. Será que ele acredita mesmo "naquilo"? Eu, confesso, também cheguei a acreditar. Ou melhor: quis acreditar, precisei de acreditar. Sobretudo, porque estava farto da arrogante incompetência pseudo-progressista da CDU (desculpe a adjectivação) e pensava que pior não podia haver. Mas, a diarreia súcia-lista tem sido grande, amigo! Não que as alternativas sejam melhores, porque os PC's, os PSD's e quejandos, esses nem sequer cagam, são a própria merda. Purinha! Imagine que ao apoiar o PS muita gente pensou que pudesse ter alguma utilidade como voluntário contribuinte para a melhoria desta cidade! Engano! Os chico-espertos de cerviz encurvada, sim senhor, lá estão - impantes e caladuchos na sua servil inutilidade - a rechear o bolsinho; os voluntários de espinha direita e resistentes ao bico calado - imperativo de dignidade que poucos praticam ou apreciam -, foram borda fora. Por mim, quero lá saber, menos trabalho tenho! Estou como o outro: eles é que ficam a perder. Como não devo nada a ninguém nem espero favor nenhum... puta que os pariu! E o Carmelo? Será que precisa de estar a mando de indigentes mentais? Ou será que acredita ser capaz de os tornar inteligentes e competentes? Admito que ele seja ingénuo ao ponto de pensar que sim, que é capaz desse milagre. Até admito que ele julgue haver utilidade no seu serviço de "acocorado" assessor cultural, mas ainda não vi nada que me fizesse pensar: boa, aqui está o dedo do Luís Carmelo! Não quero pensar que, no caso dele, afinal, tudo se resume a uma questão de cacau, de preço certo, entende? Todos quantos trabalhamos por conta de outrém somos putas, eu sei, porque todos vendemos qualquer coisa de nós. Mas, até as putas guardam uma ponta de dignidade quando fornicam com os chulos que as exploram e maltratam: não fingem gostar...
Saudações abespinhadas do Zé da Provocação