setembro 08, 2003

domingos da minha angústia...

Lá marchou mais um abominável domingo. Sempre os desadorei. O domingo das missas atafulhadas de beatas... dos casamentos contentinhos das buzinadelas e laçarotes nas antenas dos popós... da caridade aos pobrezinhos que, deduzo, só davam ao dente de oito em oito... dos baptizados com gaiatos brunidos de fatiotas horripilantes... dos programas néscios da televisão... das visitações familiares compulsivas a estalo... das digressões ao jardim público onde pisar a relva dava direito ao cadafalso e para ter cinco tostões de prazer perdia a paciência na bicha pró baloiço... da venda da Genoveva fechada o que me impedia de almejar a sorte de ter o Coluna colado na caderneta da bola... das moças de peitinhos a desabrocharem invejavelmente reféns das mães porque era o dia da família patipatá patipatá... da amargura de ver o Lusitano levar quatro secos da CUF com o Vital a chorar baba e ranho e ir parar há segunda divisão. O intolerável domingo véspera da escola do professor Pires insaciável justiceiro da régua... do tremendo Rodrigues da “electricidade” (passou quase um milhão de anos e ainda sei na ponta da língua a porra da lei do ampere «uma corrente eléctrica que atravessando uma solução de nitrato de prata na água, deposita prata na proporção de 1,118 mg/segundo»)... das incontáveis reuniões técnicas de planificação semanal que me atazanavam a paciência e quase me transmutaram num serial killer pronto a chacinar uma quadrada alcateia de doutores e engenheiros.
Estive vai-não-vai para fazer uma respeitosa petição ao Gregório afim de recuar o domingo para antes do sábado. Lucidamente, desisti. Iria, insanamente, transformar o simpático sábado num inimigo fidagal!

Publicado por machede em setembro 8, 2003 02:20 AM
Comentários

Ó amigo Pulga,
Então e o domingo indolente e sorna? O estirar na rede e cochilar, passar para o sofá com uma leitura como intenção, atalhar pela cozinha e explorar o frigorífico, arrumar uma prateleira? Não há melhor que o domingo porque não tem objectivo, é puro ócio.
Beijinhos
Cristina, a moura

Afixado por: Cristina em setembro 11, 2003 08:06 PM

Compadre: para mim, os domingos também são intragáveis. São dias de encontro comigo mesmo e, admito, não sou grande companhia. Sou chato de aturar. Antes a sogra, que ao menos está calada! Imagine que no domingo passado, dei comigo em acesa discussão a sós: estás velho, pá! Com os cinquenta à vista, já não tens reforma possível. Não te actualizaste, não te modernizaste... És uma figurinha inócua, ninguém te grama! Não tens ponta por onde pegar: não és gay, não és pedófilo, não és corrupto, não és gatuno, não és lambe-botas... estás lixado, quem é que pode confiar num gajo assim? Isto dizia eu para comigo. O outro eu ficou à rasca: estou mesmo lixado! Assim, não saio da cepa torta. Será que devo ficar com complexos? Calhando... Passou-me uma coisa pela cabeça: velho, qual quê?! Vou dar uma volta na minha vida! Ando a escolher a modernice que vou ser. É que estou farto de levar no pacote sem ser coiso, percebe? Sacana, vou ser sacana! Será que é suficientemente in?
Um abraço do Zé da Provocação

Afixado por: Zé da Provocação em setembro 18, 2003 09:38 AM