setembro 06, 2003

Ditosa Pátria alentejana que tais cus tem

Quatro canas com gulosos iscos de molho, durante um bom par de horas, para uma miserável safra de dez achigãs dez. Porca miséria. Assim como assim, abonou a expedição piscatória alqueviana o desfrute do reconfortante silêncio campestre, as lérias do companheiro António Batista e a competente merenda debicada a compasso de tonificantes tintos.
Na volta, alvejámos o azimute a Portel com a proposta de aprovisionar tabaco e intercalar um tinto. Então e não é que a meia dúzia de palmos do Tarro, mesmo no instante de meter freios ao mova, na intercessão do meio-dia e um quarto, progride e balança com requebros de malvadez um escultural alçado posterior. Regalo do campo, certamente criado à mão.
Extasiados perante tal aparição - julgo mesmo que nem a visão de Nossa Senhora em cima da azinheira produziu semelhante emoção – a catástrofe esteve iminente. Valeu a algazarra produzida pela debandada desordenada do salve-se quem puder perante o iminente abalroamento da esplanada pelo mova. E, qual cu nem meio cu, travões a fundo na besta...uhf !!!! o mova estático com a frontaria a cinco tostões dum prato com orelha de porco de azeite e vinagre. Justíssimo alarido da aterrorizada clientela ainda mal refeita do susto. Nossas diplomáticas desculpas para apaziguamento da inusitada situação. Hostes apaziguadas e já completamente entretidas a construir ironia à volta do desvario.
Já com o ritmo cardíaco reposto e entre dois sorvos de tinto:
- então, não vias a porra da esplanada?
- Não!
- e a aparição?
- então não havia de ver!


«A bunda,
que engraçada

A bunda, que engraçada
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gémeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
redunda.»

do «Amor natural» de Carlos Drumond de Andrade

Publicado por machede em setembro 6, 2003 03:19 AM
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