Quatro canas com gulosos iscos de molho, durante um bom par de horas, para uma miserável safra de dez achigãs dez. Porca miséria. Assim como assim, abonou a expedição piscatória alqueviana o desfrute do reconfortante silêncio campestre, as lérias do companheiro António Batista e a competente merenda debicada a compasso de tonificantes tintos.
Na volta, alvejámos o azimute a Portel com a proposta de aprovisionar tabaco e intercalar um tinto. Então e não é que a meia dúzia de palmos do Tarro, mesmo no instante de meter freios ao mova, na intercessão do meio-dia e um quarto, progride e balança com requebros de malvadez um escultural alçado posterior. Regalo do campo, certamente criado à mão.
Extasiados perante tal aparição - julgo mesmo que nem a visão de Nossa Senhora em cima da azinheira produziu semelhante emoção – a catástrofe esteve iminente. Valeu a algazarra produzida pela debandada desordenada do salve-se quem puder perante o iminente abalroamento da esplanada pelo mova. E, qual cu nem meio cu, travões a fundo na besta...uhf !!!! o mova estático com a frontaria a cinco tostões dum prato com orelha de porco de azeite e vinagre. Justíssimo alarido da aterrorizada clientela ainda mal refeita do susto. Nossas diplomáticas desculpas para apaziguamento da inusitada situação. Hostes apaziguadas e já completamente entretidas a construir ironia à volta do desvario.
Já com o ritmo cardíaco reposto e entre dois sorvos de tinto:
- então, não vias a porra da esplanada?
- Não!
- e a aparição?
- então não havia de ver!
«A bunda,
que engraçada
A bunda, que engraçada
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gémeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
redunda.»
do «Amor natural» de Carlos Drumond de Andrade