Fazendo fé na imprensa, está em formação um novo partido monárquico. Até aqui nada de espectacular, uma vez que há ainda uma imensa bicha do pirilau de excelsas tólas coroadas que continuam a reinar, ou, talvez antes, a decorar. Para além da inúmera realeza que sem trono onde cair morta, areja, de tempos a tempos, a naftalina da aba de grilo por casórios e baptizados levando ao êxtase e a alguns orgasmos avulsos, a plebe e o jet lili-bobone. Ao contrário do que, quando apeado do trono, predestinou o rei Faruk do Egipto - no final do século XX só restariam cinco cabeças coroadas no planeta, a rainha de Inglaterra e os reis de copas, de ouros, de paus e de espadas - há, de verdadinha, refastelado no vanguardista XXI um comité central rasinho de ideólogos da coroa acolitado de uma jeitosa catrefa de apoiantes. Atão, senhores ouvintes, onde está a graçola? A graçola está no «de esquerda»!
Ai António, como eu gostava de saber por que tabernas e tertúlias do além, tu andas meu amigo. Não era por coisa por ai além, era apenas para, entre um tinto e uma fava frita, repenicarmos uma sonora gargalhada à conta do «monárquico de esquerda».
Trouxe-me esta charla a saudade - que porra de palavra fado - do companheiro António Safara, que no auge do zaronzel marxista-leninista, anarquista, trotskista e que mais houvera na insurrecta mocidade eborense, sempre, mas sempre afirmou por debaixo do revirado bigode com o peito feito dos que ousam: eu sou monárquico, mas de esquerda! Com esta costumeira tirada, deixavas as hostes almariadas no carrossel do sério e da brincadeira. Mas atão, o António era assim e assim o teriamos de partilhar.
Foi preciso viver uma vida ao lado da tua dignidade solidária, para perceber que o «monárquico de esquerda» era um desapego aos «ismos» e um enorme apego à fraternidade.
Até mais ver António.